Para que serve a Educação?

Outro dia ouvi um comentarista esportivo falar que o tenista americano James Blake havia abandonado os estudos em Harvard para se dedicar ao tênis. Fiquei pensando sobre o que nossa sociedade considera estudo. Blake treina de 08 a 10 horas por dia para aperfeiçoar suas habilidades, viaja todo ano por mais de 15 países, em 05 continentes, conhecendo diferentes costumes, culturas, idiomas, gastronomia, moda, etc. Se isso não pode ser considerado material de estudo, fico em dúvida sobre o que pode ser.

A gente, quando pensa em educação, imediatamente liga isso à idéia de escola formal, com sala de aula e professor, livros e lição de casa. Porém, o mundo está mudando muito mais rápido que nosso pensamento padrão sobre educação pode acompanhar.

Uma adolescente que resolve seguir carreira no mundo da moda como modelo, se for razoavelmente bem sucedida, entre os 14 e 20 anos terá aprendido no mínimo quatro idiomas, viajado por mais de 10 países e convivido com uma realidade empresarial de alta performance. Tem gente que sai de universidade de primeira linha sem ter um terço dessa visão e experiência.

Afinal, qual o propósito da educação? Buscar um diploma, que não é mais decisivo no mercado, ou realmente ampliar nossa consciência de mundo? Para muitos estudantes o alvo claro é o diploma e o pensar estratégico, o conhecimento, novas experiências e uma verdadeira condição de desenvolver talentos são, quase, irrelevantes.

É preciso revisar nosso conceito sobre educação para aproveitarmos mesmo as oportunidades que estão disponíveis em nosso dia a dia. Algumas reflexões podem nortear essa revisão:

1. Educação que não muda nossa vida não serve para nada.
De que adianta estudar algo sem aprender? Aprender é transformar comportamentos, incorporar novos conceitos, refletir e revisar hábitos, compreender e aceitar diferenças. O que não incorporamos como prática não serve para nada, pois não afeta nosso modo de estar no mundo e não amplia nossa condição de ser e viver.

2. Educação é um processo permanente, amplo e aberto.
As escolas deveriam abolir a palavra formatura, porque isso cria a ilusão de que em algum momento estamos prontos e não precisamos aprender mais. A vida é um rio que flui ininterruptamente. Assim deve ser a educação. Cada momento, cada relacionamento e cada experiência devem servir ao processo único de desenvolver nossa consciência e nos permitir um agir mais acordado na vida.

3. Somos aprendizes e professores todo o tempo.
Sempre há algo a se aprender com o outro. Seja sobre nossas intolerâncias, nossas preferências, nossa habilidade ou nossa dificuldade. O outro será sempre um professor que espelha aquilo que está em nós. Assim como somos mestres de todos com quem convivemos. Nossa história é um caminho que precisamos trilhar e uma referência para quem caminha conosco.

4. Estudar é aprender sobre si mesmo.
Não há finalidade válida em estudar algo que não amplie a consciência sobre nós mesmos. Mesmo que seja o estudo de uma atividade técnica, descobrimos e desenvolvemos habilidades em nós. Tudo que é educação afeta nossa autopercepção. Se não aprendemos sobre nós mesmos, não estamos aprendendo nada de fato. Esse é o propósito básico e o maior desafio, que dura toda uma vida.

5. Educação é arte, prazer e deslumbramento.
Há algo errado se não estamos motivados para aprender. Aprender é a maior aventura, a mais divertida e a mais prazerosa, pois é uma viagem para construir a própria experiência. Se não nos sentimos curiosos, desafiados, instigados, intrigados, motivados para um processo educacional, é o momento de repensar o processo. Educar-se é aprender a maravilhar-se.

Estão aí algumas questões para colocarmos em nossa pauta de reflexões e fazer uma revisão geral nos hábitos e costumes diários que temos e nos paradigmas que determinam nossa visão sobre educação. Quem já aprendeu de maneira divertida e estimulante sabe a diferença daquilo que é aborrecido e entediante. É como diferenciar a boa literatura, que você é capaz de passar a noite acordada para saber o final da história, de livros medíocres.

Não devemos nos mapear pelo padrão. Não é porque a maioria dos processos educacionais é limitante e limitada que devemos acreditar que este é a única forma de educação possível. A maioria só espelha a patologia coletiva, como o estresse é padrão nas grandes cidades e a neurose é típica da vida moderna. Isso não significa que o estresse e a neurose são as formas mais convenientes de vida. A maioria não determina o que é certo, só determina qual o padrão que se está seguindo. É momento de revisão de padrão. E não é para mudar a escola, é para mudar nosso jeito de ser aprendiz na vida. Olhos abertos, ouvidos atentos, mente curiosa, interesse no que é diferente e tolerância são os únicos pré-requisitos.